Blog do Ramalho.org

Dr. Fantástico e a Guerra no Irã

You can’t fight here! This is the War Room!
—President Merkin Muffley

Um dos meus filmes favoritos é «Dr. Fantástico ou: Como aprendi a relaxar e amar a bomba» (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb). Peter Sellers faz três papéis no filme dirigido por Stanley Kubrick.

Como todo clássico, «Dr. Fantástico» continua atual 63 anos depois.

Os regime MAGA não tem uma explicação pública consistente para justificar o bombardeio do Irã agora. Tem várias explicações, todas inconsistentes.

Para mim, a mais plausível foi apresentada pelo Secretary of State. Israel teria avisado que lançaria mísseis para matar os líderes do Irã. Com certeza o Irã responderia com mísses e drones. Então os EUA tinham que acompanhar com um ataque maciço para reduzir a capacidade de retaliação dos iraninanos.

Esta é uma leve adaptação do argumento central em «Dr. Fantástico».

No filme, o general Jack D. Ripper (!) enlouquece e manda seu esquadrão de B-52 invadir a URSS e lançar bombas nucleares sobre alvos pré-programados, conforme um tal “Plano R”.

Na War Room em Washington, o presidente americano descobre que não tem como chamar de volta os B-52 porque o “Plano R” determina que os aviões configurem o rádio para aceitar só mensagens precedidas de uma senha, e o general Ripper é o único que sabe a senha.

O general Turgidson explica o plano de Jack D. Ripper: “Presidente, temos que lançar todos os nossos mísseis e bombas nucleares contra os russos porque eles vão retaliar com tudo, então temos que pegá-los de surpresa para reduzir nossas perdas.”

Na temporada 2026 de «Apocalipse», Bibi Netanyahu faz o papel do general Ripper.

Em «Dr. Fantástico», o presidente não aceita o conselho. Não vou dar mais spoiler. Assista o filme e aprecie a fenomenal fotografia em preto em branco.

Mas «Apocalipse» não é uma comédia. No reality show onde somos figurantes, o presidente dos EUA aceitou a sugestão do primeiro ministro enlouquecido, e mandou seu War Department bombardear o Irã com tudo, menos armas nucleares. Por enquanto. Nada de spoilers!

Outra citação

O que escrevi antes é o ponto principal, mas hoje vi outra citação de «Dr. Fantástico» no roteiro de «Apocalipse».

Um ex-diretor do serviço de espionagem MI6 do Reino Unido falou num podcast da revista «The Economist» explicando que depois que Israel e os EUA bombardearam o Irã em junho de 2025, o regime teocrático tomou medidas para aumentar sua resiliência contra bombardeios. Distribuiu seus recursos militares e sua estrutura de comando, e deu autonomia para os comandantes regionais retaliarem com mísseis e drones, sem esperar ordens caso um ataque de surpresa elimine a liderança.

O argumento de «Dr. Fantástico» tem a mesma lógica. Quando o presidente pergunta como um comandante de base aérea pode lançar um ataque nuclear sem autorização do presidente e ordens do Pentágono, o general Turgidson explica que o “Plano R” dá autonomia aos comandantes para garantir a retaliação contra os russos, mesmo que um ataque surpresa dos comunistas tenha decapitado o governo e o comando militar dos EUA. O plano é consistente com a estratégia MAD (Mutually Assured Destruction, Destruição Mutuamente Assegurada), pilar central da estratégia nuclear dos EUA desde sempre.1

É claro que o regime iraniano assistiu «Dr. Fantástico».


  1. Os roteiristas de «Dr. Fantástico» viajaram chamando de MAD a estratégia nuclear dos EUA. Opa, engano meu. Quem deu este este nome foi Robert McNamara, roteirista de «Apocalipse» nas temporadas 1961-1968. ↩︎

Tags: