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E a IA? Qual IA? A IA, uai!

A sigla “IA” é uma arma de desinformação em massa. É inútil para descrever pesquisa científica séria, mas é ideal para executivos inescrupulosos, vigaristas especuladores, e bancos de investimento.1

“Inteligência Artificial” é um saco de tecnologias incomparáveis, como uma bicicleta e uma máquina do tempo. Precisamos entender que qualquer coisa chamada de “IA” se encaixa em duas categorias.

Dois tipos de “IA”

Em 2024, o Prêmio Nobel de Química foi para Demis Hassabis e John Jumper, líderes do AlphaFold, um sistema de aprendizagem profunda que prevê a estrutura de proteínas.

AlphaFold é um exemplo de sistema que manipula padrões em um domínio muito específico. Também existem sistemas de redes neurais para reconhecer anomalias em imagens médicas, ou rostos em uma multidão. Diferentes sistemas dedicados já foram campeões de Xadrez, Go, e Jeopardy.

Todos estes estão na categoria “IA estreita”. Cada um opera só dentro de um domínio limitado. O sistema que joga Go não interpreta mãos de pôquer, muito menos a estrutura de proteínas. Porém, dentro de suas especialidades estreitas, muitos destes sistemas funcionam, e até fazem parte do dia a dia.

Mas o delírio coletivo do momento gira em torno de “IA gerativa”2. A promessa é tão atraente quanto enganosa: “Inventamos uma IA que pode responder perguntas sobre qualquer assunto.” Só que as respostas às vezes são inventadas.

Os LLMs, sistemas criados para gerar texto, são comprovadamente úteis em duas áreas: tradução automática e programação—especificamente, a geração de código, que é uma parte importante, mas não a totalidade, do trabalho multidisciplinar e essencialmente humano de desenvolver software que sirva para alguma coisa.

Quando um LLM funciona e quando não funciona

Na tradução automática, o modelo segue um trilho sem desvios: o texto no idioma original. Não há espaço para invenção. O modelo não tem que criar nada. Tem que mapear padrões linguísticos do idioma de origem para o idioma de destino. Uma tarefa bem delimitada; por isso funciona—particularmente entre idiomas da Europa, com bastante conteúdo na Web para alimentar o modelo com padrões de linguagem. Esta foi a aplicação original dos LLM dentro do Google.

E na programação?

Neste caso, o texto é gerado em uma linguagem formal, com regras sintáticas rígidas e simples, e um vocabulário restrito e previamente definido. O programa não pode usar a operação calcularComissão se ela não está definida em algum lugar. Se o chatbot inventar que precisa importar um pacote externo chamado RH_mágico, o programa falhará de um jeito bem evidente se tal pacote não existir. Além disso, a engenharia de software tem métodos e ferramentas para validar e testar o código gerado.

Para quase todas as demais profissões, não há garantias ou proteções semelhantes. Um chatbot pode escrever um contrato gramaticalmente perfeito, e também inconsistente ou cheio de brechas; mas não temos ferramentas automáticas para verificação. Um ser humano terá que ler e analisar qualquer peça jurídica linha por linha. Os chatbots tendem a “alucinar”, inventar fatos, datas, números e referências. Já foram noticiados casos de advogados que sofreram sanções por submeter petições citando decisões judiciais inexistentes.

Fora das empresas de “IA”, muitos pesquisadores de LLMs consideram que as “alucinações” são um problema sem solução, pela natureza dos algoritmos gerativos e pela falta de um modelo do mundo real, mais profundo que um “modelo de linguagem”.

A miragem do mercado total

A “IA gerativa” é interessante para os trapaceiros do mercado justamente pela promessa de utilidade universal. Lendo sobre o fraudulento IPO da SpaceX, aprendi a sigla TAM—Total Addressable Market, ou “mercado total disponível”, que descreve o potencial de vendas de um determinado produto ou serviço. Em tese, quanto maior o TAM, mais espaço para faturar e lucrar.

Os bancos que estruturaram o IPO da SpaceX chutam que seu TAM é de USD 28,5 trilhões, sendo 1,3% relacionado a operações espaciais, 5,6% telecomunicações, e 93% “IA”. Uma análise surpreendente para uma empresa sem qualquer relação com “IA” até fevereiro de 2026, quando “adquiriu” do seu próprio fundador (!) a empresa xAI, dona do chatbot autodenominado MechaHitler, que diverte racistas no Xwitter.

Se uma “IA” resolve qualquer problema, os analistas podem alegar que o TAM é do tamanho de todo o trabalho intelectual humano!

Robôs industriais x robôs dançantes

Podemos ver a mesma farsa no setor da robótica. Robôs industriais especializados são úteis há décadas. Mas um robô que solda chapas de aço não consegue limpar banheiros.

Por outro lado, segundo a narrativa, os robôs humanoides seriam capazes de substituir seres humanos em qualquer tarefa do mundo físico. O TAM é todo o trabalho manual.

Na realidade, em 2026, robôs humanoides são completamente inúteis, e estamos muito longe de ter um robô capaz de pilotar uma moto, abotoar uma camisa, apertar parafusos, e também servir um sorvete de casquinha, em diferentes momentos do mesmo dia.3

Existem apenas dois tipos de vídeos sobre robôs humanóides:

  1. Vídeos que registram o robô fazendo coisas divertidas mas inúteis, como dançar ou correr, ou tarefas muito simples, como pegar roupas de um cesto e colocá-las lentamente em uma máquina de lavar (mas não colocar sabão na máquina, nem selecionar o ciclo de lavagem e muito menos dobrar e guardar as roupas após a lavagem);

  2. Vídeos fraudulentos mostrando robôs supostamente autônomos que, na verdade, têm um operador escondido (e mesmo assim realizando tarefas inúteis ou muito simples), ou então vídeos com efeitos de pós-produção, edição, composição, ou mesmo aquela computação gráfica usada para criar a franquia Transformers.

Porém, a mídia que valoriza mais os cliques que a verdade, os algoritmos de redes sociais, e os tiozões ignorantes espalham vídeos de robôs humanóides com a mesma facilidade com que repetem histórias exageradas ou distorcidas sobre os feitos da “IA”, misturando AlphaFold com ChatGPT.

Ao encontrar uma notícia sobre “IA” ou robôs, a primeira pergunta tem que ser: é um sistema especializado? Se for, a notícia é plausível. Mas quando a protagonista é uma “IA universal” ou robô humanóide, cuidado para não acreditar em exageros, distorções ou mentiras deslavadas.4


  1. Os maiores bancos de investimento dos EUA, incluindo J.P. Morgan, Goldman Sachs, e Citigroup, estão quebrando regras para promover e lucrar com os IPOs dos maiores laboratórios de “IA”, inclusive da SpaceX, cuja proposta de IPO pode ser resumida como “Foguetes, satélites? Nosso negócio é IA!” ↩︎

  2. O vira-latismo se manifesta de várias formas no Brasil, inclusive na tradução direta de “generative AI” como “IA generativa”, quando “IA gerativa” significa precisamente a mesma coisa, é mais curta e fácil de falar, e segue a tradição acadêmica de áreas como linguística gerativa. Responda rápido: os chatbots servem para gerar textos ou para generar textos? ↩︎

  3. Para desmistificar o real estado da arte em robótica e “IA”, a melhor fonte que conheço é o blog de Rodney Brooks, professor de robótica no MIT há décadas. Nos últimos anos, Brooks publica todo 1º de janeiro um longo texto com suas previsões para o ano seguinte, e avalia suas previsões do ano anterior, sobre robótica, veículos autônomos, viagem espacial, computação quântica, e LLMs. ↩︎

  4. Não podemos esquecer que Sam Altman, o CEO-celebridade da OpenAI, foi acusado formalmente de “lack of candor” (falta de franqueza) em documento publicado pelo conselho da própria empresa—no linguajar polido dos negócios, o elemento é um farsante. Para mim, o fato de que ele continua como CEO sugere que a OpenAI é uma organização fraudulenta, e possivelmente, criminosa, como foi a Enron. É a minha hipótese após ler o rigoroso livro-reportagem «Império da IA», de Karen Hao. Altamente recomendado. Mas Altman e seus comparsas são tema para outro dia. ↩︎

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