Bill Gates x Internet
Em 1995, o diretor da MSN para América Latina me convidou para uma viagem com tudo pago para uma conferência em Long Beach, California. Teve muita demo de vaporware, festa no navio Queen Mary, e keynote com Bill Gates e Shaquille O’Neal no palco (Gates parecia um hobbit).
Na época, MSN era o megaprojeto envolvendo praticamente todas as divisões da Microsoft, imitando os grandes serviços online da época: CompuServe, Prodigy, e AOL. Com seu domínio do desktop, Gates tinha um plano infalível para criar o maior portal de serviços online do mundo, e ele queria os consumidores do Brasil, por isso a viagem do diretor técnico da Abril Online—eu.
Foi um passeio divertido, instrutivo, e praticamente inútil, mas pelo menos comprei uns bons jogos de tabuleiro.
Online, mas sem Internet
Notem que até agora não falei de Internet.1 A Internet sempre operou sobre uma coleção de protocolos voltados para serviços específicos, como e-mail, chat, compartilhamento de arquivos etc. A Web foi o primeiro serviço da Internet que permitia navegar de um arquivo para outro, em servidores diferentes, com um clique.
Os “online portals” como CompuServe, Prodigy e AOL não faziam parte da Internet. Cada um tinha sua própria infraestrutura de rede privada, além de protocolos e formatos de conteúdo proprietários, incompatíveis entre si. Até o formato GIF era exclusivo da CompuServe; Prodigy e AOL usavam outros formatos de imagem. Não existia JPEG. Era tudo mato.
O delírio de Gates
Gates apostava a empresa na criação de mais um serviço online proprietário, quando o mundo se dava conta de que a Web tinha muito mais potencial que qualquer portal fechado. Desde 1994 a Web já crescia exponencialmente, mas a cultura fechada da Microsoft era incapaz de compreendê-la.
Em Long Beach, o pessoal da Microsoft me explicou como seria uma parceria entre Abril e MSN. Entre os muitos detalhes, vou citar dois.
O formato para conteúdos da MSN seria um markup proprietário usado na época para fazer arquivos de help em aplicações Windows. Para brincar no parquinho da MSN, a Abril teria que publicar seu conteúdo num formato tosco que só funcionaria dentro da MSN.
A infraestrutura de redes era uma caixa-preta. A Abril teria que comprar e operar roteadores homologados pela MSN. Só eles teriam as senhas de administrador, porque afinal teriam que monitorar todo o tráfego para dividir a receita das assinaturas e publicidade com os vassalos, digo, parceiros. Para nós da Abril, “operar” seria basicamente ligar as máquinas na tomada e na rede, e observar se os LEDs acendiam como esperado; caso contrário, chamar o suporte da MSN.
Eu repetia: não queremos nada disso. Precisamos de um navegador para colocar num CD-ROM e distribuir para os futuros assinantes da Abril Online.2
A resposta da Microsoft para mim em 1995: um dia teremos um navegador para Windows 95, mas não para Windows 3.11 (que era o mais usado no mundo, mas na bolha da MS, já era “legado”). Por isso, quando a Abril precisou fabricar CD-ROMs para lançar o Brasil Online em 1996, licenciamos o Netscape Navigator, que funcionava no Windows 3.11, Windows 95, Windows NT, e nos Macs.
(O Brasil Online, ou BOL, foi um dos dois maiores serviços de Internet no Brasil por alguns meses, até Luis Frias da Folha engambelar Roberto Civita da Abril, resultando na “fusão 50/50” entre BOL e UOL. A joint venture adotou o nome UOL, e era 100% comandada por funcionários do Sr. Frias, porque Mr. Civita estava muito ocupado fracassando no segmento de TV por assinatura, que era bem maior que a Internet na época, e só foi engulido pela Internet com a chegada da banda larga. Mas isso é tema para outro dia.)
Padrões abertos
A Internet e a Web são conjuntos de protocolos, formatos, normas técnicas, regras de operação, e entidades que operam uma infraestrutura fundamental. As especificações e regras de governança são abertas. Sua arquitetura permite que esta infraestrutura seja distribuída e descentralizada. Tecnicamente, qualquer pessoa ou empresa que já tem acesso à Internet pode te dar acesso à Internet, sem pedir a benção de alguma autoridade central. Da mesma forma, qualquer pessoa pode ler a especificação do TCP/IP e criar do zero um sistema que se conecta à Internet.
Em um mercado razoavelmente saudável, livre de oligopólios, os padrões abertos tendem a vencer. Por mais estabelecidas que fossem, CompuServe, Prodigy e AOL não tinham como competir com a criatividade e os recursos do resto do mundo. A AOL só sobreviveu porque pivotou muito rápido para ser um provedor de acesso à Internet.
Hardcore
O que temos hoje é uma Internet controlada por oligopólios nas camadas de telecomunições, aplicações, armazenagem, publicidade, e comércio. O problema não é técnico, nem é uma conspiração de origem. É resultado do capitalismo totalmente desgovernado do mundo atual. A lavagem cerebral neoliberal considera regulamentação um tabu. Mas um mercado só é eficiente na ausência de oligopólios, e a cura para oligopólios é regulamentação anti-truste.
Como se explica reguladores permitirem que o Google comprasse o Waze, quando já tinha o Maps? E o Facebook, com bilhões de usuários, comprando WhatsApp e Instagram? A explicação mais simples e plausível é captura regulatória, uma forma específica de corrupção onde os reguladores que devem vigiar e limitar os abusos das megacorporações viram funcionários indiretos das mesmas, através de empresas de lobby.
O capitalismo selvagem desregulado pode destruir qualquer coisa, até mesmo a Internet, projetada para resistir a um ataque nuclear.
Mas há esperança, porque as pessoas estão ficando cansadas dos abusos das big techs. A arquitetura da Internet pode apoiar e inspirar novas formas da gente se conectar e comunicar, sem depender de oligopólios.
A MSN original foi enterrada; depois reciclaram a marca para um portal Web. Sem chances de vencer, Bill Gates declarou a analistas de Wall Street no final de 1995: “We are hardcore about the Internet.”
Escrevo Internet com inicial maiúscula pelo mesmo motivo que escrevo Terra e Sol assim. São nomes próprios. Só existe uma Internet, a rede global aberta que usa o protocolo TCP/IP. Também só existe uma Web. Uma internet com minúscula é apenas um aglomerado de redes qualquer. ↩︎
Um pouco mais de contexto: o Windows dominava o desktop até mais do que hoje, mas não vinha com um navegador, nem os drivers do protocolo TCP/IP, muito menos um discador para conectar a um provedor. Nem o Windows 1995, lançado em agosto, tinha estes componentes. O Windows doméstico só ganhou TCP/IP e um navegador em 1996, depois que os analistas de Wall Street questionaram o delírio que era a MSN enquanto a bolha da Web prometia retornos muito maiores para os investidores. Por isso os provedores tinham que distribuir CD-ROM com software, inclusive um discador e um navegaor, para que as pessoas pudessem se conectar. ↩︎