Blog do Ramalho.org

A Rede Social Local

Muita gente passa dias ou até semanas sem encontrar amigos num bar, sem ir ao cinema, sem dar um rolê na praça. Principalmente depois da pandemia.

O isolamento leva à polarização. A polarização destrói nossa vontade de colaborar para resolver os problemas que são de todos.

Como construir uma nova rede social que não agrave estes problemas?

O Bonde

O Jeferson Fernando da LinuxTIPS lançou a ideia de construir uma rede social no Brasil: O Bonde.

Fiquei feliz com o convite para colaborar com aquele time de feras, para desenvolver um projeto que reduza nossa dependência de plataformas controladas por bilionários ou governos, e ainda proporcione uma oportunidade de aprendizagem real.

Até 17/jan ainda não tivemos uma reunião, só o anúncio naquela live em 15/jan.

A live me pilhou para compartilhar uma ideia: uma abordagem diferente para uma rede social.

O local

As redes sociais e o streaming contribuem para o isolamento, preenchendo o tempo livre com atividades que não satisfazem nossa necessidade de contato humano para construir, aprender e se divertir juntos.

Cresci numa época em que não existia celular, muito menos Web ou redes sociais. Mesmo assim, não faltava balada toda noite, para quem tivesse a fim. A gente se encontrava em algum local previamente combinado, e daí as coisas aconteciam. Simples assim.

A troca de ideias cara a cara, em um lugar físico, tem outra qualidade. Tem mais afeto, tem mais graça.

Você não pode ser um troll, porque é muito fácil ser banido de um lugar físico e de uma turma que se encontra regularmente.

Uma federação de redes locais

Imagine uma rede social federada, no modelo do Mastodon1, onde existem N “instâncias” que se conectam para trocar mensagens pelo mesmo protocolo. Você tem sua conta na Ciberlandia.pt mas pode trocar ideia com pessoas da Fosstodon.org e da Bolha.us. Sua timeline pode ter mensagens de várias instâncias.

Diferentes instâncias podem ter diferentes regras para se inscrever: algumas só aceitam convidados, outras aceitam qualquer pessoa, mas a pessoa tem que informar um e-mail ou celular, que será validado.

A diferença fundamental: numa rede social local (RSL) você só pode validar sua inscrição em uma instância depois de se encontrar presencialmente com 3 pessoas daquela instância. Algumas instâncias podem até exigir encontros presenciais periódicos para revalidar a conta.2

Isso limitaria o alcance das instâncias? Sim. Nenhuma empresa faria isso. Mas não estamos aqui para criar uma big tech, nem uma startup. Estamos aqui para contribuir com melhoria da vida social das pessoas, com uma rede social onde o convívio no mundo real contribui para um convívio virtual mais humano, solidário, colaborativo e saudável.

Prefiro qualidade e não quantidade nas minhas conexões humanas. E você?

Como construir

A ideia do Bonde é oferecer uma oportunidade de aprendizagem para um grande número de pessoas que vão colaborar na construção e operação de uma rede social.

O difícil é organizar o esforço de uma galera em torno de um único projeto. As dificuldades de comunicação e alinhamento crescem geometricamente com o número de colaboradores.

Mas queremos ir além de construir uma plataforma de rede social.

Queremos uma rede social federada, então desde o início o objetivo é ter várias instâncias que troquem mensagens.

Algumas instâncias podem usar o software do Mastodon, que está lá no Github, apenas mudando o processo de validação da inscrição para exigir a validação presencial.

Outros grupos podem criar do zero novos servidores compatíveis em Go, ou Rust, ou Python, ou Node.js, ou PHP…

A solução de validação presencial é um projeto em si. Pode ser um plug-in para os servidores.

Novos apps para Android, iOS, Linux, Windows, MacOS, podem ser criados. Mais de um por SO até. Como já acontece no Mastodon: há vários clientes disponíveis para alguns SO.

E o grupo que decidir usar o software do Mastodon, não vai aprender nada? Vai sim. Muito antes do pessoal que fizer do zero, este pessoal estará praticando a operação de uma instância. E também aprendendo o mais difícil: como fazer a moderação de uma rede social.

Mas o trabalho deles não será tão pesado quanto é nas grandes redes sociais centralizadas.

Porque em cada instância, as regras de moderação vão se aplicar a uma comunidade local, que se encontra ao vivo. Não existe melhor estímulo para o bom comportamento social que o convívio contínuo com um grupo de seres humanos que pode te dar feedback ao vivo quando você derespeitar alguém.

Então, taí minha primeira contribuição para O Bonde: focar desde o começo em federação, múltiplas implementações, governança e moderação com aquele toque humano que só existe em comunidades locais.3


  1. A ideia da rede social local que apresento aqui é independente de qualquer protocolo específico. O Mastodon usa ActivityPub, o Bluesky usa AT Proto. Num movimento de rede social soberana, além da arquitetura federada, seria muito bom ter um esforço de integração através de pontes entre protocolos. ↩︎

  2. Estes são dois parâmetros que podem variar de instância para instância. Numa instância, a regra pode ser 6 contatos presenciais na inscrição, e anualmente a pessoa precisa refazer 6 contatos presenciais. Outra instância pode definir que só precisa 2 contatos presenciais na inscrição, mas eles precisam ser renovados todo mês. Isso estimula as pessoas a manterem o contato no mundo real! ↩︎

  3. O desenvolvimento e operação das instâncias pode ser feito remotamente, por times espalhados mundo afora. Mas a participação dentro de uma instância local só pode iniciar com um encontro presencial. Daí nada melhor que uma escola, um local de trabalho, um baile funk, ou uma conferência comunitária como a PythonBrasil, para reunir a galera ao vivo e estreitar os laços na rede. ↩︎

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