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Roy vende a ThoughtWorks

Nota: esta é uma tradução autorizada do post Roy Sells ThoughtWorks, escrito por Martin Fowler e publicado em 23/ago/2017.

por Martin Fowler

A ThoughtWorks, meu empregador, teve uma grande notícia para compartilhar hoje. Nosso fundador e proprietário, Roy Singham, decidiu vender a ThoughtWorks para a Apax Funds – uma gestora de fundos de investimento com sede em Londres. A Apax deseja que o atual time de gestores continue administrando e fazendo a ThoughtWorks crescer, usando o mesmo modelo que impulsionou nosso crescimento e sucesso nos últimos vinte e poucos anos.

Por que Roy está vendendo a ThoughtWorks?

Roy Singham fundou a ThoughtWorks há mais de duas décadas. Ele tem sido praticamente o único dono da empresa desde então. Apesar de eu ter ficado surpreso quando soube que ele estava vendendo a empresa, a notícia não era inesperada. Nos últimos anos, Roy tem se envolvido cada vez mais em seu trabalho como ativista e vem dedicando pouco tempo na administração a ThoughtWorks. Ele conseguiu fazer isso porque montou um time de gestores que é capaz de dirigir a empresa em grande parte sem ele. Mas à medida que o vi gastar mais energia no trabalho ativista, era evidente que seria atraente para ele acelerar esse ativismo com o dinheiro que a venda da ThoughtWorks traria.

Outra questão incentivando a venda foi a dificuldade de criar uma estrutura de propriedade pós-Roy para a ThoughtWorks. Roy sempre falou sobre criar algum tipo de trust para controlar a ThoughtWorks e preservar seus valores no futuro. Mas a criação de tal trust implica uma mudança de propriedade, e uma mudança de propriedade envolve impostos. Uma empresa de consultoria opera com uma margem de caixa relativamente pequena, e a conta fiscal envolvida em uma mudança de propriedade pode ser incapacitante 1). Isso surgiu especialmente quando buscamos arranjos para lidar com a eventualidade de Roy falecer subitamente. Sua morte desencadearia um evento fiscal que não poderíamos pagar com nossos próprios recursos, forçando uma venda emergencial. Apesar de vários anos de esforço, não encontramos uma maneira de preservar a empresa em sua forma atual. Isso o encorajou a vender quando não há uma cobrança de impostos sobre nossa cabeça.

Nosso futuro

A mudança é sempre desconcertante, e mudar da visão de Roy para um investidor convencional certamente levanta questões em minha mente sobre o nosso futuro. Acho encorajador que a Apax pareça reconhecer genuinamente o que nos torna únicos e quer que continuemos operando de forma a preservar nossa abordagem de desenvolvimento de software centrada em pessoas.

De fato, todo o processo de venda (que aconteceu durante a maior parte deste ano) mostrou-se bastante interessante. Várias empresas estavam interessadas em nos comprar, algumas de private equity e algumas firmas de serviços de TI bem conhecidas. Na verdade, alguns desses estavam explorando seriamente uma aquisição antes de Roy decidir que queria vender. Vi que essas empresas de serviços de TI estavam preocupadas porque sua abordagem tradicional de construir software é um mercado em declínio, e estavam interessadas em nos comprar para incorporar uma abordagem que elas viam como o futuro.

Quando entrei na ThoughtWorks em 2000, o que me motivou foi ver uma empresa cheia de pessoas que compartilhavam minha visão sobre o desenvolvimento eficaz de software. A maioria das empresas de serviços de TI que eu vira dependia de parcerias convenientes com fornecedores de software corporativo. Os clientes compram um grande pacote complexo, depois gastam uma fortuna em uma empresa de serviços para “customizá-lo” em seu ambiente. Normalmente, a empresa de serviços recebe uma comissão substancial de um fornecedor por recomendar seu produto. A ThoughtWorks, no entanto, apostou na contratação de tecnólogos capazes, que valorizam a colaboração multidisciplinar, e em dar-lhes independência para avaliar a melhor solução. Consequentemente, abraçamos o software de código aberto e as formas ágeis de trabalhar.

Em 2000, muitos argumentaram que nossa abordagem era muito idealista para ser comercialmente viável, mas conseguimos crescer desde da empresa de 300 pessoas em que ingressei em 2000 para a empresa global de 4500 pessoas que somos agora.

Nosso novo proprietário, Apax Funds, é um investidor de private equity com sede em Londres. Como muitas pessoas, tenho uma desconfiança instintiva em relação a private equity, mas, assim como as firmas de serviços de TI, existem muitas empresas questionáveis de private equity, mas algumas boas. Até agora, nossas experiências com a Apax são encorajadoras. Eles colocam um esforço cuidadoso em suas pesquisas sobre nós e parecem reconhecer os traços que nos permitiram ter sucesso até agora. Eles querem que continuemos com nossas práticas de negócios, incluindo o nosso modelo de três pilares, e desejam manter o atual time de gestores que Roy construiu.

Muitas vezes, brincamos que o iate de Roy é o seu trabalho ativista, e estamos felizes em ver os lucros dos nossos esforços ajudando-o navegar. Estou triste que vamos perder isso, e em vez disso, nosso trabalho irá remunerar investidores regulares como corporações normais. Mas ainda há muito bom trabalho que podemos fazer pelos nossos clientes e pela profissão de software. O negócio valioso que permitiu à Roy fazer a venda baseia-se nesse trabalho, e devemos continuar com ele. Eu sempre senti que, apesar das muitas coisas ruins que muitas empresas fazem, é perfeitamente possível gerir um negócio que ofereça um benefício para a sociedade, bem como um lucro para seus proprietários.

Acredito que podemos, e devemos, continuar seguindo os princípios que têm sido a base para o nosso sucesso até agora. Isso significa que vamos continuar a contratar pessoas capazes de todas as origens, prover um ambiente para que elas colaborem, criem software valioso para nossos clientes, compartilhem nossas lições com a profissão de software e defendam uma maior responsabilidade social dentro de nossa profissão. Certamente, existe o risco de um proprietário mais convencional diluir esses princípios, mas acho que temos uma boa chance de continuar mantendo-os.

A ThoughtWorks sempre foi, em larga medida, o experimento social de Roy para ver se uma empresa comercial pode ser conduzida de maneira diferente da sabedoria predominante. Nas duas últimas décadas, construímos uma empresa capaz de funcionar com sucesso sem ele. A próxima fase do experimento é ver se essa empresa pode continuar a ter sucesso sob uma propriedade mais convencional. Sei que estamos à altura do desafio, e quero estar por perto enquanto acreditar que podemos ter sucesso, para poder participar do triunfo.

1)
Se Roy transferisse a empresa para uma fundação, para os funcionários, ou vendesse para private equity, sempre haveria impostos a pagar. A diferença é que um comprador comercial pode pagar. Considere um caso em que Roy, atento a minha grande sabedoria e sentido de vestimenta, decide dar-me a companhia – o que significa que ele me entrega todas as suas ações. Inicialmente, isso parece ótimo, sou dono da ThoughtWorks e posso direcionar seu futuro. Mas então chega o cobrador de impostos, e ressalta que me deram algo de valor, e isto conta como parte da minha renda. Então, temos que avaliar essa renda, e terei que pagar imposto sobre ela. Então, se Roy me desse $100 milhões de dólares em ações, eu seria confrontado com uma conta de $50 milhões de dólares de imposto (aproximadamente). A única maneira que tenho para pagar é vender minhas ações e, como o cobrador de impostos não é conhecido por sua paciência, tenho que vender rapidamente, o que significa que eu vou ter que me conformar com um preço mais baixo. Claro, não terei que vender todas as ações, mas com as taxas atuais eu teria que vender mais da metade e, assim, perderia o controle da ThoughtWorks.
roy_vende_a_thoughtworks.txt · Última modificação: 2017-12-31 07:37 por luciano